terça-feira, 16 de novembro de 2010
penúria
Parece que o tempo parou desde que descobri a verdade: o meu falecimento, a minha sepultura feita das tuas mentiras, o meu coração enterrado juntamente com o teu corpo. Pena ter-me esquecido de enviar junto, pelos vistos, as memórias e as lembranças.
Isto tudo parece um daqueles pesadelos que ninguém compreende, em que quanto mais se tenta correr, mais se abranda, e quanto mais se tenta gritar, mais a voz se abafa – e eu só queria correr para longe de ti, gritar-te para saíres de vez da minha mente, do meu mundo já há muito desmoronado, aliás, desejava nunca ter-te conhecido, assim, nunca teria provado o sabor bem amargo da traição, do engano, da força descomunal da violenta mentira, como se fosse uma chapada na minha cara: mais uma desilusão. Odeio esses olhos maravilhosos, profundos, que tanto me hipnotizaram; odeio esse sorriso gracioso, que tanto me convidara a ficar; odeio a tua pistola apontada ao meu coração, pronta para disparar a cada momento; odeio o teu corpo de escultura digna de um Miguel Ângelo, de um verdadeiro deus de Ébano; odeio o teu jeito próprio de quando me beijavas e a forma tão única de me tocares; Odeio-te por que nunca me amaste; caso contrário não tinhas destruído tudo o que até então tinhas conseguido: a edificação da nossa casa com alicerces tão seguros, contudo sem tecto, mas com um chão bem assente, constituído por várias camadas de betão, onde sobrevivíamos unidos deitados na minha cama, que te elegeu Senhor dos meus lençóis, porém com apenas duas janelas, para deixar a luz entrar e quatro paredes para nos abrigar do vento forte das tempestades; mas tu cismaste em querer uma porta, e aí começaram as invasões e as partidas. Destruíste tudo: deixou de haver chão forte, paredes fixas e até quiseste comprar umas cortinas para as janelas – ficou tudo tão escuro, que ainda hoje não mo permitem sair deste limbo.
Consegues mexer com cada fibra do meu corpo, manipular cada hormona do meu organismo, fazer-me gritar enfurecida, sentir o meu sistema nervoso entrar em erupção. Porquê que continuas a ter este feito em mim? Raios!
Cuspo-te um grande odeio-te na cara para percebes este grande rancor que guardo dentro de mim, que nunca te irei perdoar, nem te irei dar a mão para te levantar quando estiveres num buraco bem fundo, na penúria que é, no fundo, a tristeza desta vida tão difícil. E aí vais ver o que eu estou a sentir neste momento, vais provar o sabor amargo deste buraco fundo onde me encontro. Não me levantas, andas de mãos dadas com outra enquanto eu cá estou caída, mas há-de chegar a tua vez! Oh… Ilusão desamarra-me dos teus troncos e deixa-me partir. Quero deixar de ser escrava deste amor que me enlouquece, que não me merece, que me auto destrói por completo. Deixa-me voltar a ver, a absorver a luz.
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